quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

BOMBA! Tetraplégica Luciana se cura e é vista na pipoca do Chiclete!

Assistir às novelas de Manoel Carlos sempre é uma experiência válida. Para o bem, e para o mal. As tramas do noveleiro nem sempre alcançam recordes de audiência, patinando sempre entre o mínimo e o aceitável que os empresários da Globo esperam de uma novela do horário nobre. Maneco passa longe do gênero suspense-policialesco de Silvio de Abreu, não tem a perspicácia de Aguinaldo Silva para desenvolver núcleos de baixa renda, não se interessa pelo luxo irônico de Gilberto Braga e muito menos se deixa levar pelos mundos emaconhados de Glória Perez.
Porém, do seleto time de escritores do horário nobre, o bom velhinho é o único que mantém a mesma fórmula "classe média problemática" há anos e sempre consegue atrair os holofotes para seus personagens pecaminosos. Sim, nem as famosas Helenas escapam e também cometem seus deslizes. Barracófilo assumido, o Autor conquistou fama pelas brigas homéricas travadas por seus personagens, repletas de diálogos ácidos e discussões no melhor estilo Nelson Rodrigues e Tenneese Williams.
Logo, apesar de não ter um histórico de novelas de tanto sucesso como seus colegas, que guardam cartas na manga do tipo "quem matou fulano" para alcançar picos de audiência, certamente Maneco é o mais comentado de todos. Não há quem não saiba o que se passa em suas novelas, principalmente pelas famigeradas polêmicas envolvendo o sempre presente merchandising social. A troca de bebês, a rejeição a uma portadora de Síndrome de Down, os personagens alcóolatras, Helena-saco-de-pancada-Ranaldi, as Mulheres que Amam Demais e a careca de Carolina Dieckman são alguns dos grudentos e memoráveis temas abordados por Manoel Carlos.
Assim, é impossível permanecer indiferente depois de exposto à uma sessão de aproximadamente 1h de um de seus capítulos. Ao espectador sobram duas opções. Ou praguejar o artifical Leblon manoelcarlino, suas conversas vazias, cenas dispensáveis, e trocar o canal para Márcia Goldshmitt, que dá no mesmo; ou admirar aquele universo utópico e se deixar levar no circo montado pelo autor, o que é mais prático do que sentar a bunda pra ler a coleção de fascículos de Augusto Cury.
De uma fora ou de outra, tanto o primeiro tipo quanto o segundo vão tecer observações sobre a obra. Sejam elas rápidas e rasteiras ou verdadeiras dissertações de mestrado sobre aquela filha da vizinha que teve uma história parecida.

Chegamos então à mais recente presepada envolvendo sua atual novela, Viver a Vida. A célere e bem sucedida recuperação de Luciana (Aline Moraes), que outro dia estava tetraplégica e hoje senta, abre caixas, toma banho, dá tchauzinho, assovia e chupa cana. Deixando de lado a impossibilidade científica e lógica da velocidade da recuperação, já que em novela tudo pode e tudo acontece, a maratona da personagem rumo ao final feliz tem levantado controvérsias. Há aqueles que torcem pela mensagem de esperança, superação, e volta por cima, no desejo que aquela história alcance o barraco daquela velhinha com osteoporose, atrite, artrose, reumatismo, cifose, lordose e escoliose e a faça querer pular da cama e cair na gandaia, e há aqueles, como a maioria dos brasileiros deficientes físicos, que tem achado um absurdo e uma ofensa à sua condição, como se não fosse possível ser feliz sobre uma cadeira de rodas. Todavia, ao mesmo tempo, a riquinha mimada não só é paparicada por todos como tem sido disputada pelos galãs da novela, que como manda a cartilha do surrealismo novelístico, não se importam em ter uma namoradinha cadeirante, quando infelizmente é sabido que na vida real a disputa seria no máximo para se livrar do abacaxi aleijado.

Ao que tudo indica, o próprio autor ainda não se decidiu se vai curar a personagem totalmente, transitando entre os obscuros métodos de vudu e magia negra que fazem Aline Moraes abrir os beiços de felicidade quando inexplicavelmente mexe o pézinho e os diálogos água-com-açucar sobre a importância de ser feliz indiscriminadamente. Enquanto isso, a atriz se diverte e curte seu merecido descanso de Carnaval, que obviamente não foi na pipoca do Chiclete, mas se você leu o texto até aqui esperando a tal bomba do título, saiba que caiu num recurso publicitário amplamente utilizado pelos conglomerados internacionais. Em outras palavras, eu contei uma mentira para chamar sua atenção. Mas não é disso que as novelas são feitas?

2 comentários:

  1. "na vida real a disputa seria no máximo para se livrar do abacaxi aleijado."

    Você vai pro inferno quando morrer, sem nenhuma dúvida.

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  2. voce sempre com um toque de sarcasmo. Interessante, dei alguns sorrisos durante toda a leitura. iusahdiuashd. Você se mostrou um grande noveleiro..já pensou em participar do video game?!
    ashdiuahsdiuahd

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