quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Scorsese reencontra Kafka

Claustrofóbico. Paranóico. Agoniante. Assustador. Tenso. Por mais que procure palavras para descrever as sensações produzidas pelo mais novo filme de Martin Scorsese, elas me fogem à mente. Passo longe de ser um fã do cineasta, e cometo o pecado de achar obras primas do cacife de Taxi Driver e Touro Indomável incrivelmente chatas. Daí minha surpresa com esse longa.
Depois de finalmente ganhar o tão esperado Oscar com o divertido Os Infiltrados (aquele filme em que todo mundo morre e depois de duas horas de projeção te faz perceber que você não se importou com nenhum personagem), Scorcese volta às origens e mostra por que é um dos diretores mais importantes do século passado, contando a história de um policial enviado para investigar o desaparecimento de uma prisioneira de alta periculosidade de um manicômio judiciário localizado na tal Shutter Island do título (Ilha do Medo, na versão Herbert Richards), e que, absorto em seus próprios demônios, encontra a tênue linha que separa a loucura da sanidade. Contar mais estraga.
A direção é espetacular. Tem a personalidade e a grandiosidade inerentes ao seu realizador, com planos abertos e bem elaborados, cronometrando meticulosamente cada detalhe, como um maestro regendo sua orquestra. A atmosfera noir dos primeiros vinte minutos logo é abandonada para dar lugar ao clima desesperador que acompanhará o resto da projeção, explorando com louvor o ambiente naturalmente pavoroso de um hospício. O medo é realmente tão impressionante que às vezes o espectador se pergunta se não estará diante de um filme de terror, visto que a fotografia, como sempre o décimo segundo jogador dos filmes de Scorsese, beira a genialidade, nos fazendo acreditar na potencialidade maléfica envolta no lugar.
Os efeitos sonoros são outro espetáculo à parte, evocando aos filmes de suspense de antigamente, provocando arrepios na espinha sempre que são executados. Dicaprio, por sua vez, dispensa comentários, pois já conseguiu seu lugar ao Sol como um dos melhores atores de sua geração, imprimindo ao personagem Teddy Daniels todas as feridas, a violência contida, e a desconfiança exigidos pela história, características recorrentes na filmografia de Martin Scorsese, desde o motorista de táxi veterano de guerra vivido por Robert DeNiro ao atormentado Howard Hughes interpretado pelo próprio DiCaprio. Em um determinado momento da projeção, uma personagem chega a citar Franz Kafka, numa referência que se encaixa perfeitamente no clima ambíguo e nas motivações obscuras presentes na trama. Poderia muito bem ter saído das mãos de um Hitchcock da vida e ainda assim não seria tão bom.
O filme tem sido bem recebido pela crítica especializada, e já obteve a melhor bilheteria de estréia da dupla formada em Gangues de Nova York. Obviamente, apresenta as cenas previsíveis de praxe e os diálogos clichés, porém são equívocos ofuscados pelo brilhantismo que o diretor imprime na condução da película. A velha fórmula do "nada é o que parece" é virada do avesso e ainda que alguns achem a solução apresentada no desfecho deveras forçada, não tira a magnitude do produto final. Emocionante. Profundo. Diabólico. Bizarro. Imperdível.

2 comentários:

  1. Bizarro, mas num bom sentido. Filme de e para maluco, mas quem não é maluco, nem que seja um pouco?

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  2. eu sempre me importo com leo, hunf!
    deu vontade de ver o filme, heeein?
    tudo pra superar o filme lixo de hospício que eu assisti no outro dia, "insanitarium" (ou alguma coisa desse tipo - passe longe!)
    o/

    =**

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