
"Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas" (Chico Buarque)
Filmes de mulherzinha são certeza de bilheteria. Por que a mulher, ainda que não seja cinéfila, adora "pegar um cineminha", e sempre dá um jeito de levar o namorado a tiracolo. Ele não queria estar ali. Ela sequer perguntou se ele queria ver esse filme ou se preferia ver Megan Fox de shortinho dirigindo uma moto em Transformers. Mas para não contrariar as mulheres, esses seres tão inconformados, ele vai mesmo assim.
E o inconformismo feminino é tema de inúmeros filmes. É esse o tema central de Thelma & Louise. Duas amigas que resolvem fugir de suas vidinhas medíocres, e saem dirigindo pelo interior dos Estados Unidos pilotando um Thunderbird. Louise mata um estuprador. Thelma dá pra Brad Pitt. E no final as duas se descobrem almas gêmeas e se jogam do alto de um precipício, com centenas de policiais brucutus tentando prendê-las. Simone de Beauvoir do início ao fim.
É esse também, de forma sutil e mais realista, o tema da recente comédia francesa "Enfim, Viúva". Um marido chato, mala sem alça, como quase todos que a gente vê por aí, pensa que tem o total controle sobre sua mulher, que incorpora o perfil da perfeita esposa subserviente. O que ele não sabe é que ela contornou todos os anos de humilhação tendo um caso com um pescador pobretão. E quando o marido morre num acidente de carro, ela dá graças a Deus por ter se livrado do traste.
Por outro lado, nós somos bombardeados também com catástrofes do nível de Sex and the City. Nunca assisti a série, mas não preciso colocar o dedo na tomada pra saber que vou levar um choque. À exceção da personagem Samantha, que abomina relações monogâmicas, sendo por isso a menos desinteressante da série, todas as outras não passam de coroas reclamonas e rabugentas, que nunca, eu disse nunca estão satisfeitas com nada.
E esse é um dos maiores males do nosso século. Essas mulheres de cabeça vazia, que não têm nada melhor para fazer, então perdem tempo discutindo seus relacionamentos, para a tristeza dos seus parceiros. A geração de mulheres Sex and the City quer tudo para si (o que é louvável, tendo em vista dois milênios de subjugação aos homens), mas exigem isso irracionalmente. Elas querem que o casamento seja perfeito, que o namorado ou marido seja o macho alfa, exale virilidade pelo dedo do pé, e ao mesmo tempo seja sensível, e compreenda seus problemas. Querem se realizar profissionalmente, e querem ter dinheiro, mas não aceitam dividir a conta do restaurante. Querem que o homem seja um herói, para protegê-la de todos os males, e querem manter sempre viva a chama da paixão, mesmo que o tempo, esse fator corrosivo dos relacionamentos, inevitavelmente diga o contrário. No primeiro filme da franquia, a protagonista Carrie Bradshaw queria que um homem que já havia se divorciado três vezes lhe desse uma festa de casamento de contos de fada. Não deu. Em vez disso deu uma cobertura de 20 milhões de dólares no Central Park. Mas ela não gostou. No final, percebeu que amava mesmo aquele cara e voltou pra ele igual a um cachorrinho. No segundo filme, ela descobre que o casamento não é essa vida de princesa que ela pensava, e que o esposo dá mais atenção para a televisão do que para ela. Então, qual é a solução? Vamos viajar pra Abu Dhabi, que fica praticamente ali na esquina, torrar dinheiro , para que no final ela perceba que sente falta da mesmice do seu relacionamento. E voltar feito um cachorrinho pro marido viciado em televisão.
Ou seja, na fórmula de Sex and the City, totalmente antifeminista diga-se de passagem, a mulher insatisfeita deve sair em busca de si mesma, deve se amar, se valorizar, e descobrir no final que gastou uma fortuna viajando só para voltar para os braços do marido depois.
A geração menos abastada de esposas, que não podem se dar ao luxo de dar um pulo em Paris para esquecer os problemas, frequentam psicólogos e às vezes saem das sessões piores do que entraram.
Por fim, temos as esposas muito menos favorecidas, que não perdem um só segundo de suas vidas procurando cabelo em ovo nos seus relacionamentos, por que estão ocupadas demais limpando a casa, fazendo o almoço das crianças e ainda se desdobram com outro emprego fora de casa. Pior, se chegam a cogitar que o casamento está em crise, sabiamente não vão dividir isso com os maridos, por que se encherem muito o saco deles acabam tomando uns catilipapos no meio da cara.
No primeiro grupo, lógico, se encontra a surreal personagem de Julia Roberts do filme "Comer, Rezar, Amar". Ela não ama mais seu marido. e não quer mais viver um relacionamento rotineiro. Ao invés de explicar isso pro coitado, ela resolve fugir no meio da noite, destruindo o coração de seu companheiro, que jurava que levava uma vida perfeita.
Como toda nova-yorkina rica da geração Sex and the City, Liz Gilbert (Julia Roberts) reolve arrumar as malas e viajar em busca de si mesma. Vai para a Itália se empanturrar de comida, depois vai pra Índia rezar, depois para Bali encontrar um amor. Acaba conhecendo o "brasileiro" Felipe (Javier Bardem), se apaixonando e vivem felizes para sempre. É essa a sinopse divulgada pelos produtores.
Ora, um filme cuja sinopse é o resumo em três linhas de toda sua história não pode ser boa coisa. Tudo bem, diriam os fãs, mas o ponto positivo do filme não é o final, mas sim todo o desenrolar da jornada de auto descoberta da protagonista. Ledo engano, pois não há nada que desperte o interesse na trama. Na Itália, temos todos os estereótipos típicos da visão americanizada. Italianos são sedutores, gesticulam muito e rendem boas piadas. Na Índia, miséria, fome e sistema de castas. Em Bali, na Indonésia, praias paradisíacas, festinhas animadas para turistas e bangalôs.
Não há conflito algum, não há nenhuma dificuldade a ser superada. É praticamente o relato insosso da viagem da protagonista, que roda o mundo e não chega a lugar nenhum. Se entrega à caridade e à meditação, na incessante procura pelo equilibrio pessoal, mas continua insatisfeita com sua vida. Quando acaba se apaixonando por Felipe, dá um chilique por que não quer mais se envolver em relacionamentos. No final, decide chutar o pau da barraca e se joga de cabeça no novo amor. Tsc.
Até quando vai durar essa paixão, só Deus é quem sabe. O que eu sei é que assisti as duas horas do filme e não vi diferença alguma entre a personagem rabugenta do começo e a mesma pessoa problemática do final. Não passa de mais uma fábula pseudo-feminista sobre uma mulher fútil, que tinha tudo e não conseguia ajeitar a sua vida sozinha. Precisava viajar até a Indonésia. Para o deleite e frustração das milhões de espectadoras do filme, que não têm dinheiro nem tempo para isso, e o máximo que podem fazer para esquecer os problemas é comprando um livro de auto ajuda ou frequentando as sessões do descarrego da Igreja Universal. Garotas, poupem seus seus namorados dessa sessão de tortura. Eu mesmo fui arrastado ontem, comi pipoca na parte da Itália, dormi na parte da Índia e ronquei quando chegou em Bali. No final, rezei agradecendo aos céus que aquele filme inútil tinha acabado.
Baiano de minha vida,
ResponderExcluirConcordo que fugir para Paris, Abu Dhabi, Bali, India ou qualquer lugar assim não é a solução para que nenhuma mulher se encontre; todavia, não posso deixar de comentar o machismo do seu comentário. Porque muitas mulheres também vão ao cinema com os namorados ver Meg Fox de shortinho e filmes de ação em que tudo explode sem reclamar e sem gostar, apenas para fazê-los felizes. Fazer o mesmo pela namorada de vez em quando não custa. Mulheres de Atenas estão fora de moda e o feminismo radical dos anos 60 também. Ninguém mais queima sutiã e deixa de depilar as axilas em forma de protesto e tampouco quer ser dependente e submissa a um marido. Não estou com isso defendendo iniciativas como a das meninas de Sex and the City, ou da protagonista de Comer, rezar e amar; no final das contas, acho que nós dois concordamos, só achei o machismo exagerado e desnecessário e como você bem sabe eu sou "rebelde" demais para não expor o meu incômodo. Obviamente, entender o universo feminino não se resume a aceitar discutir a relação de 5 em 5 min, ou torrar dinheiro em compras; mas acho que faltou um pouquinho mais de sensibilidade da sua parte. Nem tudo é tão fútil quanto parece.
Mas que livro e filme são bem ruins, isso é inquestionável.
Marinão!!
ResponderExcluirQue bom ouvir sua revolta a intenção foi realmente essa. Chocar e promover o debate, para que vozes de mulheres de verdade sejam ouvidas - e não toda essa superficialidade retratada no cinema.