
Leve e despretensioso como um suco de acerola. Não é popular como um suco de laranja, mas vamos, pelo menos é rico em Vitamina C. O filme Malu de Bicicleta brilha pelas miudezas, pela sutileza com a qual a história é contada, pelo conforto dos atores nos personagens, e pela inocência da trama, nem um pouco original, porém boba como minha vó assistindo Silvio Santos. Tudo isso (e mais um pouco) faz do filme uma agradável surpresa e um grande momento para o cinema nacional.
Explico. No Brasil, os filmes 1) são exclusivamente direcionados para um seleto grupo intelectual, 2) Exploram a violência e os problemas sociais do País, ou 3) Não passam de comédias escrachadas e draminhas xexelentos para promover atores da Globo. Temos aí exemplos como Estômago, Tropa de Elite, Central do Brasil, Cidade de Deus, Se eu Fosse Você e De Pernas pro Ar. Não estou desmerecend tais flmes - aliás, penso justamente o contrário -, mas sim quero dizer que não se pode pensar numa cultura cinematográfica madura se não tivermos obras como esta, que divertem e encantam sem propósito algum. É o típico entretenimento que não lota as salas de cinema, mas que avisa aos produtores que nem só de desgraça e estrelas globais é feito o cinema brasileiro.
Marcelo Serrado é Luiz Mário. Paulistano, pegador e dono de uma boate em São Palo. Um dia, após quase ser assassinado por uma namorada que não aceitava a rejeição, resolve tirar férias no Rio de Janeiro, e é atropelado no calçadão pela carioca da gema Malu, numa bicicleta.

Ela é interpretada com uma simplicidade ímpar por Fernanda de Freitas (a famosa cópia de Deborah Secco). Uma personagem apaixonante, desprendida, alegre e moleca como uma típica carioca. Os dois logo iniciam um caso de amor, apesar da evidente diferença entre ambos. Com uma construção psicológica extremamente interssante e referências que vão de Woody Allen a Machado de Assis, o filme é uma comédia dramático-romântica e ainda presta uma bela homenagem às diferenças entre o modo de vida paulistano e o carioca - e aos eventuais choques decorrentes disso. Malu leva uma vida sossegada, pratica esportes, curte uma praia e adora a natureza. Luiz Mário é cheio de regras, auto-ironia e aquele sarcasmo do dia-dia. Destaco aqui a cena em que ele não entende como ela pode usar uma bicicleta como meio de transporte, tentando-a convencer da praticidade de um automóvel. É estereotipado. É por vezes um tanto superficial. É um filme bem besta. E talvez justamente por isso, é uma delícia.
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