sexta-feira, 27 de maio de 2011

A beleza do monótono

Para quem assistiu O Poderoso Chefão Vol. III o nome Sofia Coppola pode gerar uma certa má vontade. Motivo? No filme que encerra a saga de Michael Corleone, Sofia, atendendo ao pedido do pai Francis Ford Coppola, interpretou a filha de Al Pacino, em substituição a Winona Ryder (que abandonou o projeto). E o resultado disso foi um desastre: dois Framboesas de Ouro - pior revelação, pior atriz coadjuvante. Mas esqueçam a vida de Sofia como atriz e lembrem de sua vida como diretora.
Seu primeiro filme foi "As Virgens Suicidas". Para quem ainda não assistiu, corra na locadora e assista, é um de meus preferidos. Focado nos Lisbon, família repressora com 5 filhas, mostra os efeitos que o excesso de autoridade e a ausência de expectativas podem causar. É fantástico, simples, profundo e já começa a mostrar o maior traço de Sofia - a monotonia.
Seu segundo filme foi um tapa na cara da sociedade. "Encontros e Desencontros" recebeu Oscar de melhor roteiro original e ganhou diversas indicações em 2004, competindo à época com o recordista "O Senhor dos Anéis". Com o excelente Bill Murray e uma Scarlett Johansson ainda principiante (foi esse papel que deslanchou a carreira dela), joga a monotonia de duas pessoas abandonadas em Tóquio. Frustradas em suas próprias solidões, se encontram e começam uma relação de compaixão mútua. Um filme lindo, marcado pelo silêncio e por cenários tão cheios e tão vazios ao mesmo tempo.
Eu sou suspeita pra falar do terceiro filme, "Maria Antonieta". Muitos a acusaram de superficial, em contraste a toda aquele profundidade de personagens e situações de seus filmes anteriores. Arrisco dizer que eu entendi Sofia. Um filme sobre personagens históricos tradicionalmente superficiais, falsos e supérfluos, como fugir à realidade? Daí surgiu um dos filmes mais bonitos - visualmente falando - dos últimos tempos, cujo assunto central é, ora bolas, a superficialidade da família real francesa à época de Maria Antonieta. Achei fantástico, traduziu exatamente minha concepção sobre a vida no Palácio de Versalhes: comidas, roupas, perucas, cores, móveis, falta de assunto e falta de interesse para com o mundo lá fora (em plena Revolução Francesa). Como não podia deixar de ser: monótono.
Mas esse post seria teoricamente para falar sobre o último filme de Sofia, "Um Lugar Qualquer". Ando meio por fora da vida cinematográfica por conta das mil e uma atividades em que me meti, mas a luz no fim do túnel fica nos sábados. Tenho aulas pela manhã no prédio do famoso cinema da UFBA, aqui em Salvador, e na frente do café (delicioso, como todo café de sala de arte) fica um grande mural com críticas, indicações e resenhas de filmes. É esse bloco de madeira laranja que está salvando minha vida cinéfila da extinção, e foi lá que eu descobri "Um Lugar Qualquer".
Como fiz questão de ressaltar aí em cima, a monotonia de seus filmes sempre me chamou atenção. É o elemento central e essencial do desenrolar das tramas e dos conflitos de seus personagens. Em "Um Lugar Qualquer", o excelente Stephen Dorff (adooooro ele!) é um ator renomado de Hollywood que leva uma vida vazia e sem qualquer motivo. Ele tem uma filha de 11 anos (a lindinha Elle Fanning, irmã de Dakota Fanning) com quem não tem grande proximidade. Então a guria fica com ele por um bom tempo e ele acha uma razão temporária pra viver. Até que a guria tem de ir embora e ele se desorienta e o filme termina com uma tentativa de nova jornada. Lindo, simples, monótono. 
Eu falo sempre da monotonia de Sofia porque a considero muito bonita. É essa monotonia que nos faz entender o personagem e nos compadecer dele, porque nos faz sentir na pele a tristeza e a desesperança. É essa monotonia que faz Sofia ser tão fantástica em tratar da humanidade dos personagens. E a receita perfeita para mais um filme lindo de sua autoria.

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