
Por onde devo começar? Ambientado nos anos 60 - minha década preferida -, altas referências à Guerra Fria, protagonizado pelos meus personagens favoritos, e com a maior fidelidade possível ao desenho animado que marcou minha infância. Assim é X-Men: Primeira Classe.
Quando o primeiro filme foi lançado, em 2000, eu era apenas um garoto de 11 anos, viciado em televisão, e que até então dedicava as manhãs assistindo Scooby-Doo, Liga da Justiça, Mickey e Donald, Os Flintstones, e claro, X-Men. À noite, quando chegava do colégio, a cena se repetia, e lá estava eu hipnotizado pela TV CRUJ, com seu Pateta&Max, Timão&Pumba e Marsupilami. Era uma época boa, quando engarrafamento em Salvador se resumia à região do Iguatemi, quando o Leite Moça custava menos de 1 real, quando a pipoca do Multiplex era a coisa mais cara do mundo (opa, ela ainda é a coisa mais cara do mundo, desculpem), e quando filmes baseados em histórias em quadrinhos praticamente não existiam. Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e Homem de Ferro...se todos eles ganharam vida, devem isso ao sucesso do primeiro X-Men.
Enfim, no dia da estréia, lembro-me de pegar um ônibus, com minha mãe, de Itinga até o Center Lapa, programão repetido todo final de semana. Lá o ingresso era 2 reais, e dava direito a um saquinho mixuruca de pipoca. Se não me engano, foi o segundo filme legendado que assisti na vida (depois de Titanic), e fui esperando todos os elementos que adorava no desenho. As piadas inspiradas, a paranóia soviética, o clima de espionagem, o universo escolar e os uniformes espalhafatosos. Mas nada disso aconteceu. Bryan Singer (o diretor, nerd assumido) entregou um produto sóbrio, sério, e com uma história simples. Tempestade foi retradada como uma retardada. Vampira, uma mala-sem-alça. Professor Xavier, o porre de sempre. Jean Grey, uma inútil. E o brucutu Wolverine, o personagem que eu mais detesto, foi alçado ao posto de astro do filme, em toda sua glória, sua arrogância, e suas piadinhas presunçosas que o povão adora. A salvação foi o Magneto de Ian McKellen, com sua sutileza e elegância de lorde inglês, seu humor negro, e sua ironia britânica. No geral, gostei do filme, mas ainda não tinha sido aquela Brastemp que eu estava esperando.

Aí veio X-Men 2, alguns anos depois, muito mais ousado, inventivo, e original. Muito mais personagens, desvios de caráter, filosofia, discussões políticas e análises freudianas. Foi considerado pela maioria dos críticos como o melhor filme de histórias em quadrinhos já realizado, até que Christopher Nolan lançar seu "Batman - O Cavaleiro das Trevas". Mas antes do Coringa rir por último, X2 foi um espetáculo de direção e roteiro. Efeitos visuais de primeira (o que dizer da invasão do mutante Noturno à Casa Branca?) e diálogos incríveis. Ação ininterrupta, desfecho emocionante e um gancho para um próximo filme. Foi perfeito.
Todavia, quando você pensou que a trilogia seria encerrada com chave de ouro, a FOX lançou o irregular "X-Men: O Confronto Final". Muitos mutantes, e muitas histórias. A Fênix, a Cura, a morte (?) do Professor Xavier, a Irmandade de Magneto. Foi tudo muito apressado, afobado e mal desenvolvido. Mas ainda assim, estava longe de ser ruim. E como foi um sucesso de bilheteria, a Marvel inventou de produzir a história da ORIGEM dos X-Men, e pensando no lucro fácil que poderia obter, pegou o personagem mais popular da série, o insuportável Wolverine, colocou um roteiro pavoroso, e entregou a um diretor de quinta. Foi um desastre, uma ofensa à inteligência, à mitologia da série, e até mesmo a John Logan, retradado como um mongolóide apaixonado.
Porém, quando toda a esperança havia minguado, enterrada a sete palmos com a bomba protagonizada por Wolverine, eis que a Marvel anuncia um novo filme, dessa vez que contasse a história de como Charles Xavier e Eric Lensher (Magneto) se conheceram. E quando lançaram o trailer na Internet, eis que uma luz se acendeu, e me senti de novo como aquele garotinho de 11 anos ,prestes a ver seus "super-heróis" favoritos pela primeira vez lá no Center Lapa.

E o filme conseguiu superar todas as minhas expectativas. Primeiro, por que não há sinal de Wolverine (quer dizer, ele até que aparece, numa das cenas mais engraçadas do filme, mas é muito pouco para estragar o produto final), segundo por que é praticamente narrado sob o ponto de vista de Magneto, esse sim o meu ídolo de infância, e terceiro, por que apresenta várias explicações interessantíssimas sobre a série, como a origem de Mística, a origem do capacete de Magneto, a origem da cadeira de rodas do Professor Xavier, e tantas outras histórias. Os efeitos especiais são inacreditáveis de tão espetaculares, o roteiro é fantástico e todo o folclore dos quadrinhos é respeitado.
Eric Lensher, muito antes de virar Magneto, foi uma criança sofrida, que perdeu a mãe num campo de concentração nazista, foi perseguido, torturado, e quando adulto, decide se vingar do seu algoz, o cientista Sebastian Shaw, outrora oficial das tropas de Hitler. Michael Fassbender (excepcional) nos entrega um Magneto impulsivo, amargurado, cheio de ódio, rancor, e ávido por sangue. Sua relação com Xavier é o ponto alto do filme, principalmente pelos discursos inteligentíssimos protagonizados pelos dois, com personalidades completamente diferentes, e ideais diametralmente opostos, mas unidos apenas por uma bela e sincera amizade. Aliás, o otimismo e a generosidade de Charles Xavier para com a humanidade, por sua vez, é explicado pela vida boa que sempre teve, totalmente distinta daquela história vivenciada por Magneto. Aquele que hoje conhecemos como Professor X não passava de um gênio riquinho, mauricinho, galanteador, e que não perdia um regue e uma bebedeira.
O filme ainda nos apresenta vários outros mutantes bem interessantes, mas são esses dois que merecem o maior destaque. Há cenas tão inspiradas, e marcadas por diálogos tão afiados e tão perfeitos, que poderiam muito bem ter saído da mente de um Quentin Tarantino, por exemplo (vejam a cena da vingança sanguinária de Magneto contra dois ex-oficiais nazistas e depois me digam se não estou certo).
E o que dizer dos poderes dos mutantes? Nunca as habilidades foram tão bem exploradas como nesse filme. Aqui, verdadeiramente, os personagens usam e abusam dos seus dons, em sequências de tirar o fôlego e lutas excepcionais. Além disso, para quase todos os poderes, o Professor Xavier nos dá uma explicação científica, e totalmente plausível, em que nos demonstra logicamente a razão daquela mutação genética, porque determinado personagem consegue voar, ou como um mutante deve proceder para controlar sua energia. Uma verdadeira aula.
Para completar, o clímax de X-Men: First Class é uma apoteose, onde tudo acontece ao mesmo tempo, num daqueles raros momentos onde a poltrona do cinema vira uma cadeira de montanha-russa. É impossível desgrudar os olhos da tela, pular, bater palmas, ou gritar "Toma, vagabundo!" quando um vilão toma um sopapo.
Nada mais há a ser dito. Assistam o filme, e se forem fãs do desenho, sintam-se crianças novamente, pois está tudo lá. Esqueçam a bobagem que foi o terceiro filme. Ignorem a hecatombe nuclear estrelada por Wolverine. Esse aqui é cinema-pipocão de primeira, como só Hollywood sabe fazer. Errar é humano. Errar duas vezes é mutante. Mas acertar bem no alvo, aí é X-Men. E que venha mais um filme da franquia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Pode reclamar, a gente não liga!