segunda-feira, 18 de julho de 2011

Plataforma 9 3/4 é fechada para sempre

"You're a wizard, Harry".
Eu tinha 11 anos quando fui numa excursão do colégio para a Feira do Livro que rolava todo ano no Centro de Convenções aqui em Salvador. Como bom filho único, aprendi que não poderia haver melhor companhia do que a minha, por isso tratei desde criança de me virar em programas que precisassem de apenas uma pessoa: eu mesmo. Desde cedo descobri a televisão, o cinema, e claro, os livros, esses objetos mágicos que nos transportam pra outra realidade. Pois bem, lá estava eu, passeando pelos estandes, quando me deparei com um balcão onde estavam empilhados três livros de uma tal série britânica que havia virado a coqueluche entre meus amigos. Era a história de um garotinho, filho único, e também de 11 anos, incompreendido pelo mundo, e que morava num armário embaixo de uma escada na casa dos tios malvados, até descobrir que era um bruxo e ser resgatado por um meio-gigante com um guarda-chuva rosa mágico e finalmente levado para uma Escola de Magia onde iria fazer grandes amigos e enfrentar um bruxo malvado.
Achei a história meio bobinha, confesso. Mas como o livro estava na promoção (R$17,00) resolvi levar pra ver colé de merma. E eu nunca ia imaginar que essa simples compra ia virar a minha série preferida, me acompanhar por toda adolescência com mais 6 volumes (o último livro foi lançado em 2007, quando tinha 18 anos), ditar regras de comportamento, ensinar valores sobre amizade, lealdade e companheirismo, e claro, manter cada vez mais forte a paixão pela leitura. Esse livro, meus amigos, era Harry Potter e a Pedra Filosofal.
Em novembro de 2001, quando o filme foi lançado no cinema, eu já era fã, sonhando com o dia em que uma coruja deixaria uma carta na minha caixa de correios me mandando largar o Colégio Militar e fugir pra Hogwarts. Peguei minha mãe pelo braço, pegamos o velho busú lá em Itinga e fomos pro Iguatemi pagar aquela fortuna de ingresso no Multiplex. Como era de praxe de todo fã, não gostei muito do filme, que tinha uma narrativa extremamente irregular, tal qual um livro filmado, além de ser muito colorido, infantilóide e boboca. O único mérito, bem, é ter sido o primeiro de uma franquia bilionária, tendo sido responsável, portanto, por toda a direção de arte, figurino, e claro, elenco estelar que acompanharia todos os outros filmes por longos 10 anos. E que elenco. Alguém aqui consegue imaginar Severo Snape interpretado por outro ator a não ser Alan Rickman? E Maggie Smith como Minerva McGonagall?
Enfim, o filme até que tinha lá seus pontos positivos. Mas num ano que Peter Jackson lançou o espetacular, a obra prima, o megalomaníaco "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel", eu nem quis saber mais de Harry Potter nos cinemas.

"One Ring to Rule them All"
O Senhor dos Anéis virou meu filme preferido. Era Deus no céu e os Hobbits na Terra. Continuei a ler os livros de Harry Potter, ainda viciado pela narrativa empolgante que se seguiu com A Câmara Secreta, O Prisioneiro de Askaban e o Cálice de Fogo, mas no cinema, meu coração era da Terra Média. E em 2003, quando O Retorno do Rei foi lançado, não preciso nem dizer que tive que levar uma caixa de lenço pro cinema, já que chorei mais do que o volume de água das Cataratas do Iguaçu. Quando os créditos subiram, ao som de Anni Lennox interpretando "Into the West", eu sabia que as pirações de Tolkien haviam acabado, e que eu tinha que voltar a depositar minhas esperanças nos fraquinhos filmes do bruxo inglês.
Calma, não me entendam mal. Eu adorava os filmes, mas não passavam de entretenimento fácil, efeitos especiais de quinta (quando comparados com o Gollum/Smeagol da Weta Digital), interpretação de segunda (Daniel Radcliff não atuava, ele lia o roteiro, vamos combinar), e ação vagabunda (QUEM queria saber das peripécias na Floresta Proibida, uma cobra gigante que petrificava queles que a olhassem nos olhos, e jogos de Quadribol fuleiríssimos quando Peter Jackson deixava todo mundo de boca aberta com sequências como O Abismo de Helm ou os Campos de Pellenor?). Porém, eis que a Warner Bros resolveu mandar Chris Columbus passear na feira, e pensando no tom mais sombrio que a série tomava, contratou ninguém menos que Alfonso Cuarón para dirigir o terceiro filme da saga.

"Expecto Patronum!"
Dementadores. Conflitos não resolvidos entre professores de Hogwarts. Um assassino maníaco fugitivo da prisão e decidido a matar Harry Potter. Corredores escuros. Revelações bombásticas do nível de "Quem matou Odete Roittman". E o desfecho mais original visto até então na saga - Sirius Black, revelando-se inocente, continua um foragido da polícia, enquanto o verdadeiro vilão, Pedro Pettigrew, outrora o rato Perebas de Rony, não só não é preso, como sai determinado a reencontrar Voldemort e trazê-lo de volta à sua forma corpórea. Um prato cheio nas mãos do experiente diretor mexicano, que mudou COMPLETAMENTE o ar infantilóide da série, definindo para sempre o rumo que a saga tomaria a partir de então (só a título ilustrativo, ele foi o primeiro a mudar o logo da Warner Bros de dourado-serelepe para o azul-cnzento-depressivo que nós conhecemos hoje).
Mudou tudo, mas tudo mesmo. A casa de Hagrid mudou de lugar, Hogwarts deixou de ser o Castelinho da Cinderela e se transformou numa fortaleza medieval assustadora, e teve direito até a metáforas sexuais, com um Harry Potter brincando com sua VARINHA embaixo do lençol à noite, e tendo orgasmos mágicos de luz BRANCA enquanto gritava "Lumus Maxima". Rá!
O filme foi um sucesso estrondoso de crítica, mas não de público. Os fãs se revoltaram, bateram o pé e deram chilique com as inúmeras mudanças em relação ao livro. Eu particularmente gostei mais ainda. Acho que o cinema tem que ousar mesmo, adaptar o que ficar melhor visualmente e descartar o que for irrelevante. Afinal de contas, a obra de J.K. Rowling não é nenhuma Bíblia que não possa ser alterada por ninguém.

"Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima"
Esqueça o Cálice de Fogo, para mim o pior filme de todos, um lixo, uma catástrofe, um apocalipse, a visão do inferno. Eu tenho até vergonha quando assisto aquela porcaria dirigida por Mike Newell. A única parte realmente boa é a cena do cemitério, com o retorno do nosso querido Tio Voldie pra azucrinar a vida de Harry e com a morte de Cedrico Diggory, interpretado por aquela mula que depois viria arrancar gritos histéricos de adolescentes fogosas nas sessões de Crepúsculo.
Quando anunciaram nova mudança de direitor para A Ordem da Fênix, dei graças a Deus, Aleluia, Insha-lá e Hare-baguandi (Caminho das índias, alguém lembra?). O quinto livro da série era um dos meus preferidos, senão o meu preferido. Anárquico, e apresentando um Harry Potter revoltado, com o Diabo no corpo e querendo matar todo mundo. Uma profecia cabeluda sobre Uma nova diretora na Escola, com carinha angelical mas com alma do Satanás. E claro, num cenário muito mais ameaçador que nos livros anteriores, afinal Lord Voldemort estava de volta, e a Segunda Guerra Mundial (na cronologia bruxa) estava começando.
Chamaram um ilustre desconhecido para dirigir, um tal de David Yates, que fez um trabalho correto, nada excepcional, mas com a pegada realista necessária para encerrar a série. Na altura do lançamento do quinto filme (em 2007), o último livro já havia sido lançado, e toda a esperança foi depositada nas produções cinematográficas. Se não teremos mais Harry Potter nas livrarias, que façam pelo menos alguma coisa digna nos cinemas, foi o que todos os fãs pensaram. E cá entre nós, David Yates se superou. Os produtores gostaram tanto da forma que abordou o universo potteriano, que contrataram o cara para dirigir os outros filmes, no caso, o sexto e o sétimo (posteriormente dividido em duas partes).
O Enigma do Princípe manteve o clima sombrio, apresentou sequências espetaculares, e um Severo Snape cada vez mis dúbio, e caminhando para se tornar o melhor personagem da série. Muitos reclamaram que faltou a mini-batalha final na Torre de Astronomia - de fato, o desfecho foi bem fuleiro -, mas o diretor pediu desculpas dizendo que capricharia na tão aguardada Batalha de Hogwarts, que encerraria a saga. E ele não caprichou. Ele simplesmente realizou uma das melhores cenas de batalha da história do cinema, do cacife de grandes sagas como o já citado Senhor dos Anéis e claro, Star Wars. Foi épico, fantástico, visceral, e inacreditável. E foi ainda melhor que o livro.

"What do you know about the Deathly Hallows?"
A divisão de Harry Potter e as Relíquias da Morte em duas partes incomodou muita gente, inclusive a mim. A primeira parte foi prejudicada pela ausência de clímax, e em sua tentativa de ser fiel à história de J.K.Rowling, a trama acabou tropeçando nos mesmos pontos do livro, que é bem fraquinho por sinal, se comparado a outros da série, e o que vimos no cinema foi um projeto de road-movie com cenas desnecessárias e enfadonhas, além de sequências retardadas como todo a fuga da Mansão Malfoy, uma ofensa ao tom realista que a saga havia tomado com A Ordem da Fênix.
Mas o melhor, David Yates guardou para o final. As Relíquias da Morte - Parte II não só é o melhor filme de todos os 8 já lançados, como entrou para a minha lista de filmes preferidos, ao lado de O Retorno do Rei, O Cavaleiro das Trevas, Esqueceram de Mim e Kill Bill. Avaliação subjetiva? Óbvio que sim. Mas não que o fato de eu ter chorado, soluçado, levantado da poltrona e aplaudido seja necessariamente em razão de ter acompanhado a série durante 10 anos. É evidente que por toda a minha adolescência eu esperei por esse momento, e ao me emocionar, lembrei de todas as estréias em que fui, sempre acompanhado de minha mãe. Lembrei de todo o ritual que fazíamos em seguida, ao saírmos das sessões: passar no Bob's, comprar um milk-shake de Ovomaltine, sentar na praça de alimentação e discutir todos os pontos do filme, positivos e negativos. Lembrei do quanto fui marcado por esses livros, e do quanto sou grato à Autora por ter criado uma história que me prporcionou uma das grandes alegrias da minha vida.
Falar de As Relíquias da Morte - Parte II é estragar todas as surpresas. Basta que você saiba que Daniel Radcliff finalmente mostra pra que veio, confortável como nunca na pele de Harry Potter, que Ralph Fiennes se diverte como nunca na pele de Lord Voldemort, e que Maggie Smith e Alan Rickman nos presenteiam talvez com a melhor interpretação da história da série, e Severo Snape, particularmente, se encerra como um dos grandes vilões da história do cinema, ao lado de Darth Vader, Coringa, Gollum e Hannibal Lecter.
Isso é tudo. Falar de Harry Potter é falar da série mais lucrativa da história, um fenômeno mundial que encantou crianças dos 8 aos 80 anos, e que nos deixa agora órfãos, como um bando de trouxas na Estação de King's Cross, na vã esperança que a Plataforma 9 3/4 seja aberta novamente. Falar de Harry Potter é falar de cada um de nós, e do quanto dedicamos os últimos 10 anos das nossas vidas nos divertindo com suas aventuras mirabolantes. Tudo não passou de uma imensa fantasia, eu sei, mas como diria o Prof. Dumbledore, apesar de ter acontecido apenas na nossa mente, não quer dizer que ela não tenha sido real.

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