quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sobre sonhos, insatisfações e amenidades

Uma das maiores características do ser humano é a constante insatisfação com o que está a seu alcance. Costumamos estar descontentes com o relacionamento, com a profissão, com o clima, com a cidade, com os objetivos não alcançados... 
Gil não seria diferente. Como um típico insatisfeito do século XXI, tem dúvidas quanto a seu noivado, deseja escrever romances ao invés de roteiros de filmes e sonha em morar na Paris da década de 20. Assim, Gil é o retrato do deslumbrado inconformado que sonha em viver do passado. Não consigo dissociar a imagem dele da angústia, do mal do século romantista. Ele tem uma conduta tipicamente escapista, sentimentalista e individualista. 
Sua noiva, pelo contrário, cosmopolita, urbana e moderninha, acaba permitindo os desencontros que o farão mergulhar sozinho nos encantos da Paris artística dos anos 20, através de um pequeno toque de ficção científica provocado por caronas em um Ford vintage surgido do badalar da meia-noite. 
É entre Hemingways, Fitzgeralds, Dalís e Picassos, que Gil curtirá o encanto da cidade luz, acompanhado de muito whisky, canções animadas e charmosas mulheres de cabelos curtos e vestidos de cintura baixa. E é nesse mesmo cenário em que ele aprenderá a grande lição ensinada por Woody Allen com "Meia-noite em Paris".
Nunca fui muito fã de Woody Allen, mas desde "Vicky Cristina Barcelona" - ao qual já assisti pelo menos umas 3 vezes - vim criando uma boa vontade para assistir os filmes dele. Recebi uma sugestão muito confiável (Dri, obrigada!) e fui conferir pessoalmente. O que descobri? Um filme que nos faz refletir, sem muito trabalho, sobre nossa existência.
O alerta é quanto à necessidade das pessoas de viverem do passado. Afinal, quem não tem vontade de viver em um passado próximo ou distante? O que aprendemos com Gil é simples assim: carpe diem
Eu poderia me alongar explicando cada detalhe que nos leva à antiga expressão latina arcadista, mas não há motivo. A lição é simples e direta. Tão simples e direta que tento escrever sobre ela há quase uma semana e não achava palavras ou expressões que traduzissem exatamente o que pensei. Até agora.
A beleza da história é colocar você, expectador, nos sapatos de Gil. A lição será interpretada à luz de sua própria trajetória, de seus desejos, de seus erros e acertos e daqueles momentos que pensa em refazer. 
Acredite: assistir a "Meia-noite em Paris" é uma jornada de autoconhecimento. Gil me fez pensar sobre as escolhas que assumi, sobre momentos bons do passado, sobre minha vida no presente. Cada um destes pequenos ingredientes utilizado para me fazer feliz com meu próprio momento, em uma análise crítica de minha própria história. Percebi, com isso, o que está me incomodando e agradando, bem como as consequências dos caminhos que trilhei. Concluí, assim, onde estou, como estou e porque assim estou. O resultado? Satisfatório. Cumpri a missão proposta por Woody Allen: gostar do passado, mas viver no presente, em paz com minhas escolhas e confiante no meu futuro.
Acredito que o grande objetivo do filme seja esse. O que importa é compreender a lição do carpe diem, mas cada um a seu jeito

Não adianta eu vir aqui traçar um discurso sobre a proposta do filme, ou mesmo destrinchar cada detalhe da moral da história. Não... "Meia-noite em Paris" é um filme fantástico, mas você terá que tirar suas próprias conclusões. Por isso, corra pro cinema mais próximo e embarque nessa incrível jornada autocrítica. No final, pode ter certeza, vai valer muito à pena.

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